Imagem área do entorno do Maracanã. A cerimônia de abertura já é um dos maiores feitos da Rio-2016 (Foto: Mark RALSTON / AFP)

Imagem área do entorno do Maracanã. A cerimônia de abertura já é um dos maiores feitos da Rio-2016 (Foto: Mark RALSTON / AFP)

Havia certa apreensão antes da abertura dos Jogos Olímpicos Rio-2016. O brasileiro não costuma conviver bem com o equilíbrio: escancara o pachequismo com a mesma intensidade que adota o vira-latismo. Então, bobagem dizer que a cerimônia não vinha carregada de expectativa. E no teste final, o Brasil passou com folga.

Moderna, sensível, calorosa, divertida, corajosa. O excesso de adjetivos cabe para tentar compreender o que se passou durante quatro horas no estádio do Maracanã. Quando Paulinho da Viola abriu o evento cantando o hino nacional, eu já estava de pé, andando de um lado para o outro na sala, tentando disfarçar a emoção. Mas precisei sentar quando o público cantou à capela “País Tropical”, uma das cenas mais lindas que já vi em uma cerimônia olímpica. A famosa catarse de um povo que traduz na música boa parte de seus sentimentos.

Veio Santos Dumont com seu 14-bis para abrir a pista de voo. Vieram Elza Soares, Ludmilla, Cristian do Passinho, Zeca Pagodinho, Marcelo D2. E aí surgiu Gisele Bundchen e, por alguns segundos, o ar ficou mais pesado. Muitos prenderam a respiração para ver toda aquela beleza desfilar na maior passarela que a modelo já enfrentou.

Gisele Bundchen desfilou no Maracanã, a maior passarela de sua carreira como modelo (Foto: FRANCK FIFE / AFP)

Gisele Bundchen desfilou no Maracanã, a maior passarela de sua carreira como modelo (Foto: FRANCK FIFE / AFP)

E o roteiro seguia sua toada, contando a história do Brasil. Sem esconder os personagens que até hoje são associados ao país, como os índios, e sem esconder as barbáries que até hoje provocam reflexos sociais, como a escravidão. E chegou a hora de globalizar os dilemas e preocupações, com bastante tempo dedicado às questões ambientais.

Os desfiles das delegações sempre tiram o ritmo de um evento dessa magnitude, mas ninguém parece ter se importado – nas arquibancadas ou nos sofás de casa. A mistura de culturas, sorrisos, danças, comportamentos, uma mensagem forte de tolerância envelopada em milhares de sementes depositadas por cada atleta. O ápice surgiu com o time de refugiados. Dez atletas que precisaram fugir de seus países, mas receberam o asilo esportivo e os aplausos de mais de 80 mil pessoas.

Não teve Pelé, por questões médicas, mas teve um trio que merece cada passo percorrido. De Gustavo Kuerten para Hortência, de Hortência para Vanderlei Cordeiro de Lima. Vanderlei, um herói olímpico sem ouro, mas eternizado com a medalha Pierre de Coubertin. Uma homenagem digna, uma tradução perfeita espírito olímpico.

Vanderlei Cordeiro acende a Pira Olímpica no Maracanã (Foto: FRANCK FIFE / AFP)

Vanderlei Cordeiro acende a Pira Olímpica no Maracanã (Foto: FRANCK FIFE / AFP)

A pira acesa, o mundo pronto para receber as Olimpíadas. O protocolo quebrado não evitou as vaias a Nuzman, quando agradeceu às três esferas governamentais, muito menos a Michel Temer, que não foi anunciado para evitar que o barulho fosse ainda maior. Uma reação forte e previsível de uma nação politicamente em frangalhos. Mais simbólico ainda o ato de acender a outra pira, a do povo, na Candelária, palco de uma chacina há 23 anos. Jorge Gomes, 14 anos, nascido no morro da Mangueira e que sonhar um dia competir nos Jogos.

Jorge, que não soube bem como dosar o nervosismo com a alegria. Assim como aconteceu comigo quando a voz de Paulinho de Viola vibrou. Assim como cada brasileiro que busca no esporte um alento para uma rotina dura, violenta, triste, sacrificante. A Rio-2016 está oficialmente aberta. E o Brasil conseguiu, em uma única noite, trazer o sopro de abstração e fé que seu povo tanto precisava.

 A pira da Candelária, que ficará acesa até o final dos Jogos Olímpicos (Foto: Mark RALSTON / AFP)

A pira da Candelária, que ficará acesa até o final dos Jogos Olímpicos (Foto: Mark RALSTON / AFP)