Vasco, campeão carioca de 2016

Vasco vive momento de apontar a bússola da caravela para terra firme na elite (Foto: Paulo Fernandes/vasco.com.br)

São 26 jogos de invencibilidade, um bicampeonato carioca invicto nas costas e parte da autoestima resgatada. Mas é pouco. A missão da caravela vascaína nos mares revoltos à sua frente é bem maior do que isso. Ao entrar na disputa de sua terceira Série B em oito anos, na estreia contra o Sampaio Corrêa, neste sábado, o Vasco tem de pensar na próxima década. Fazer jus ao apelido de Gigante e encarar a missão para honrar sua trajetória e pavimentar um céu de brigadeiro novamente. A missão do Vasco é voltar a respeitar a si próprio.

A abrangência nacional vascaína é inegável. Embora figure em pesquisas de tamanho de torcida entre 4% e 5%, atrás de Palmeiras, São Paulo, Corinthians e Flamengo, talvez a popularidade do clube de São Januário perca apenas para as dos dois primeiros. Seja Manaus, Curitiba, Porto Alegre, Belém, Rio Branco ou São Luiz, os vascaínos marcam presença em massa, quase como locais. Feito atingido em razão de sua própria História, abalada nos últimos anos. A missão vascaína a partir deste 14 de maio de 2016 é ignorar praticamente a última década, olhar para frente e voltar a se solidificar na elite à qual sempre pertenceu. Dos últimos seis Brasileiros da Série A nos quais participou, o Vasco foi rebaixado na metade. Golpe no próprio ego. Um grande clube não pode se sujeitar a isso.

Com Nenê, Rodrigo, Martín Silva e companhia, a tarefa de passar pela Série B deste ano não deve ser complicada como, por exemplo, em 2014. A superioridade técnica aliada ao time determinado e organizado por Jorginho devem dar conta do recado. Encaminhado este passo, o Vasco deve planejar seus próximos dez anos para sequer cogitar disputar uma inglória luta contra o rebaixamento. Para isso, não basta o campo. Deve se fortalecer como instituição. Gigante o clube já é, embalado pela torcida e pelo caldeirão de São Januário. As bravatas de Eurico Miranda e a inabilidade de Roberto Dinamite deverão ser mesmo episódios do passado.

Vasco, campeão carioca de 2016

Superioridade técnica deve dar conta do recado na Série B (Foto: Paulo Fernandes/vasco.com.br)

Ser tradicionalista até o último fio de cabelo, com sua social recheada de famílias portuguesas que formaram os pilares do clube fundado há quase 118 anos, não é problema para o Vasco. Faz parte de seu gigantismo. É clube que tem em sua história capítulos de batalhas contra o racismo, de um estádio construído com dinheiro do seu povo para lutar com forças maiores. Orgulhar-se é natural. Mas em meio a dívidas e desmandos, o clube se perdeu, comprometeu sua aura do gramado e se vê ainda abalado perante rivais nacionais. Reorganizar-se financeiramente é pilar fundamental na missão vascaína.

Em estudo publicado no blog do jornalista Mauro Cezar Pereira, da ESPN, a dívida vascaína teve recuo de 22% entre 2014 e 2015, beirando atualmente cerca de R$ 468 milhões. Os custos do futebol em 2015 na receita de quase R$ 180 milhões atingiram 54% do total. O buraco ainda é grande, mas há espaço para ser competitivo. Ser tradicional e moderno. Renovar um elenco que conta com vários atletas na faixa dos 30 anos já deveria ser meta para 2017. O compromisso do Vasco tem de ser com o seu futuro, sua próxima década. Não apenas com o agora.

Aos olhos dos pequenos torcedores atuais, solidificar a imagem de clube gigantesco, de camisa forte, com a cruz-de-malta pulsante, no sentimento sem parar do pulsar da Colina. Disputar Brasileiros no topo, Libertadores, abocanhar Estaduais e Copa do Brasil. Voltas olímpicas. Taças. Desfilar e revelar craques, como de seu feitio. Dar orgulho sem ameaça de novos sofrimentos que abalem as estruturas colossais de São Januário. Gigante por si só, o Vasco é para milhões amor mais antigo, história, vida, primeiro amigo. Não é pouco. A missão vascaína que se inicia neste sábado vai muito além da Série B. Depois de cair e voltar duas vezes, o compromisso é diferente. É corrigir a rota e apontar a bússola da caravela para terra firme na elite. Tarefa para um Gigante.