Jogadores do Leicester comemoram o fim de um tabu de 132 anos (Foto: BEN STANSALL / AFP)

Jogadores do Leicester comemoram o fim de um tabu de 132 anos (Foto: BEN STANSALL / AFP)

Nós já vimos diversas vezes esse roteiro. Aquele time desacreditado, repleto de jogadores de qualidade duvidosa. Fora de forma, velhos demais, jovens demais, desengonçados ou simplesmente um amontoado que ninguém leva fé. O técnico segue o mesmo perfil: um ex-aposentado em atividade, o pai dos amiguinhos da escola, um velhinho que masca fumo na beira de um gramado qualquer. E tudo se desenrola como naquele passe de mágica que percorre todas as etapas previstas da trama: escárnio, suor, dificuldades, turning point, vitórias, o derradeiro milagre e a conquista épica.

Há pelo menos uma centena de histórias assim produzidas nos estúdios de Hollywood. Mas o Leicester trouxe ao mundo real o mais saboroso filme esportivo feito por um clube de uma liga enorme como a Premier League. O até então nanico tinha a missão de escapar do rebaixamento, o que lhe renderia uma boa quantia de grana para se manter dignamente como coadjuvante da liga.

Com 77 pontos e, após o empate de hoje do Tottenham, seu principal adversário na disputa por pontos corridos, os Foxes conquistam pela primeira vez na história o título nacional. Uma pena apenas que o calendário não permitiu trocar a “secagem” contra o rival pela festa em campo. Mas os jogadores souberam comemorar mesmo assim, com todos reunidos na casa de Jamie Vardy, maior destaque deste time e apontado como o jogador mais valioso desta edição.

O feito do Leicester emociona ainda mais quando se coloca uma lua sobre o time e sua forma de jogar e entende-se que não estamos falando da quase perfeição desfilada por times como Barcelona, Real Madrid ou Bayern de Munique. Não há toda aquela embalagem lustrosa de Champions League que separa as potências dos medíocres. Mas os Foxes souberam separar os meninos dos homens, liderados por Claudio Ranieri, que escreveu uma carta quando a conquista se tornou iminente e não hesitou em chorar dentro de campo após uma de tantas suadas vitórias.

Muitos de nós comemoraram a chance de poder testemunhar momentos absolutamente históricos do esporte. O surgimento de Michael Jordan, a Copa de 1970, a Laranja Mecânica, as braçadas de Michael Phelps, os segundos finais de Usain Bolt. O título do Leicester certamente entra nessa lista que nem é tão pequena, mas que tem um critério de seleção muito alto para aceitar mais um integrante.

Imagine então o que o dia de hoje significa para um torcedor deste time de 132 anos que combateu rodada após rodada seu próprio anonimato. Algo difícil de se acreditar e mensurar, pois são raríssimos os casos equivalentes. Não é somente a vitória de um pequeno. É, sobretudo, um gigante que ignorou a régua que sempre lhe serviu.