Diego Souza no Sport

Diego Souza ficou 96 dias no Fluminense antes de voltar ao Sport (Foto: Williams Aguiar/Sport)

Diego Souza, sorridente, posou com a camisa do Fluminense, assinou contrato de três temporadas e, já um veterano de 30 anos, parecia rumar para um fim de carreira no clube onde fora revelado 12 anos antes. Ledo engano. Foram apenas 96 dias até o meia voltar para o Sport nesta semana. Um comportamento cada vez mais característico dos jogadores brasileiros: o desapego.

O caso de Diego é mais um em meio ao troca-troca abusivo de clubes. Vá lá que o meia tome as próprias decisões baseadas em um futuro confortável da família e, por isso, opte pelo lado financeiro. Mas nem esse parece ter sido o caso. Diego voltou para onde acabara de sair. Do clube que fora revelado retornou à última casa, onde passara pouco mais de um ano. Na carreira profissional, o meia soma 13 transferências. Lá e cá. Uma relação comercial. Fria. E até estranha.

Pois antes de sonhar com milhões na conta bancária e pular de galho em galho para somar as cifras, o garoto que batalha para se profissionalizar no mundo da bola sonha em criar raízes, conquistar títulos, converter-se em ídolo de uma torcida. O velho chavão de “fazer história”. E, não se sabe muito bem o porquê, quando se torna adulto parece contaminado pelo meio empresarial. A relação com os clubes é quase protocolar. Três meses no Fluminense, outros seis no Coritiba, mais uns quatro no Atlético-MG. Tudo bem, tudo legal. Mas futebol é mais do que isso. Um dos poucos ofícios onde ainda há espaço para o romantismo, para um verdadeiro envolvimento. Longe do “você paga, eu recebo”.

Ronaldinho assina contrato com o Fluminense

Ronaldinho ficou 79 dias nas Laranjeiras (Foto: Gabriel Peres/Fluminense)

O efeito causa comparações com argentinos, por exemplo. Hermanos também desabravam o mundo em busca de glória, fortuna e fama. Mas a identificação com os clubes, o sonho do moleque vez em outra bate forte neles. Verón voltou ao Estudiantes para capitanear o time rumo à Libertadores, em 2009. Mais do que grana, história, desejo de estar imortalizado na galeria do clube. Assim como Heinze e Maxi Rodríguez no Newell´s Old Boys. E, claro, Tevez no Boca Juniors. Voltou com um salário digno da fama, mas ainda assim algo marcante para quem acabara de ser finalista da Champions League como grande destaque da Juventus.

Ronaldinho, gênio da bola, tornou-se um cigano no fim de carreira. No mesmo Fluminense de Diego Souza protagonizou papelão ao permanecer por apenas 79 dias. E depois de uma passagem meteórica pelo inexpressivo Querétaro, do México. Haja desapego. Talvez psicólogos expliquem que Ronaldinho e Diego façam parte da geração Y, formada por jovens que nasceram entre as décadas de 80 e 90. Uma de suas características, dizem os especialistas, é o total desapego ao emprego.

Pulam de galho em galho, com pouco desenvolvimento de relações com o local de trabalho. Talvez. Mas, ainda assim, permanecer apenas 96 dias no clube que o revelou e dar adeus como quem troca de carro é de permitir uma reflexão. E, também, um desapego. Inclusive com a própria história.