“Ele foi um craque, mas jogava com a 14”. Essa é a primeira lembrança que tenho de Johan Cruyff. Meu pai me apresentou assim um dos maiores gênios da história do futebol. O “mas” na frase talvez fosse necessário para contextualizar para uma criança de 10 anos que começava a se apaixonar pelo esporte e que poderia logo perguntar. “Por que não era o camisa 10?”.

Um número na camisa pouco usual numa época em que o normal era um time entrar em campo escalado de 1 a 11 mostrava que Cruyff queria ir além do comum. E fez de tudo para ser especial no esporte que mais amava. Viu o futebol moderno, no melhor sentido que ele possa ter, antes de todos. Conduziu um time que sempre estará no pódio dos que mais influenciaram a modalidade mais praticada do mundo. Era tão especial que jogou só uma Copa do Mundo porque em 1978 se recusou a disputar um torneio jogado num país que vivia em ditadura militar, a Argentina.

Cruyff

Cruyff em partida contra a Argentina na Copa do Mundo de 1974 (AFP/STF)

Como parece ser a sina dos times que encantam, a Holanda de 1974 não foi campeã da Copa em que Cruyff jogou. Mas como a Hungria de 1954 ou o Brasil de 1982, não precisou de uma taça para ser coroada e celebrada. E assim seguirá sendo.

A lembrança que tenho do meu pai me apresentando Cruyff vem de 1992, quando já técnico, levou o Barcelona ao seu primeiro título europeu. Ele estava sentado no banco naquela partida pelo Mundial Interclubes em que o São Paulo de Telê Santana o desbancou. Se foi vice pouco importa. Ali estava sendo posta a pedra que marcou o futebol nos últimos 25 anos.

Foi com ele que o Barcelona que conhecemos hoje foi forjado. Foi das suas lições que Pep Guardiola, seu ex-jogador, tirou o conceito que formou o clube mais vencedor dos últimos 10 anos. Foi da escola barcelonista implantada por Cruyff que veio a inspiração para técnicos de todo o mundo. Não há um que não o tenha como referência hoje. A maioria fracassa na tentativa de reproduzir em seus times o que Cruyff ensinou, mas isso pouco importa. Copiar o mestre não é tarefa fácil.

“Jogar futebol é muito simples, mas jogar um futebol simples é a parte mais difícil do jogo”, disse Cruyff.

Essa é uma das muitas frases célebres do homem que morreu nesta quinta-feira aos 68, vítima de câncer no pulmão. Quem ama o futebol chora sua morte, mas antes venera seu legado. E a camisa 14 está lá no panteão dos heróis do esporte mais popular do mundo. Única e só dele, Johan Cruyff.

Johan Cruyff (1947 - 2016)

Johan Cruyff (1947 – 2016) (Koen van Weel/ANP/AFP)