Cristóvão Borges chega ao Corinthians para substituir uma unanimidade (Foto: Divulgação Corinthians)

Cristóvão Borges chega ao Corinthians para substituir uma unanimidade (Foto: Divulgação Corinthians)

Quando Tite anunciou que aceitaria desta vez o convite da CBF para treinar a seleção brasileira, logo se viu que o Corinthians não tinha a menor ideia de como substitui-lo. A reação nervosa do presidente Roberto de Andrade, dizendo que a “CBF não merecia o treinador”, intensificou a impressão de que não havia plano B, e sim a esperança de Tite recusar mais uma vez a oferta.

E, de certa forma, a falta de confiança da torcida na chegada do novo treinador passa por esta indefinição. Cristóvão Borges nunca esteva na mesa como um candidato. Ele só surgiu como opção após as recusas de Roger Carvalho (Grêmio), Eduardo Baptista (Ponte), Fernando Diniz (Oeste/Audax) e Sylvinho (auxilar técnico na Inter de Milão) e o descarte de medalhões sem consenso dentro da diretoria, como Oswaldo de Oliveira (Sport) e Mano Menezes (desempregado). Então, é inegável que Borges chega com o rótulo de “o que sobrou no mercado”.

Mas isso não significa que fracassará. O maior problema é a sombra que o perseguirá a cada jogo. Porque não bastará apenas ser bom. Torcedores, imprensa, diretores do clube inevitavelmente cobrarão um desempenho que ao menos se aproxime do grau de excelência atingido por Tite em 2011, 2012 e 2015. É um referencial ingrato, até porque os elencos são bem diferentes, mas não há como fugir disso em um clube desacostumado ao papel de coadjuvante. Pegar o time no G4 do Campeonato Brasileiro aumenta ainda mais a responsabilidade sob seus ombros.

Cristóvão Borges tem um trunfo: uma modesta mas honesta passagem pelo Corinthians como jogador. Atuando como volante, foram 13 gols em 58 jogos, sendo o mais marcante aquele que deu ao Timão a vitória no primeiro jogo da semifinal do Campeonato Paulista de 1986 (o Palmeiras venceria a segunda partida e se classificaria à final, vencida depois pela Inter de Limeira).

Outro momento que marcou a carreira de Cristóvão como treinador foi ter apontado “componentes racistas” nas críticas ao seu trabalho, quando estava à frente do Flamengo. “O racista vê o negro como aquela pessoa que deve dizer amém e não deve se colocar. E eu sou a antítese disso. Eu me coloco, tenho posição e defendo as minhas convicções”, disse á época, em entrevista ao programa “Linha de Passe“, da ESPN.

Para Bruno Winckler, editor do Esporte Final, o Corinthians é o clube ideal para Cristóvão mostrar que de fato é um técnico capaz de assumir um grande clube. “Ele chega a uma equipe que se notabilizou por não interromper contratos com técnicos nos últimos 8 anos. Mesmo Tite, hoje consagrado, foi mantido após traumáticas eliminações”. Outro diferencial que contribui para este planejamento é o fato de o Corinthians contar com uma comissão técnica fixa. “O Fábio Carille, que dirigiu o time nos jogos contra o Fluminense e Botafogo, é um bom exemplo de continuidade. Está no clube desde 2009. É responsável pelos treinamentos de defesa da equipe, setor que sempre figurou entre as melhores do país nos últimos anos“, destaca Winckler.

Se Borges poderá contar com a paciência de um clube que deu total respaldo aos últimos treinadores, ao mesmo tempo terá que lidar com o imediatismo da torcida que, este ano mesmo, foi ao centro de treinamento cobrar melhor desempenho dos jogadores. Sem títulos no currículo, Cristóvão terá que provar ser capaz de quebrar esse tabu pessoal e comandar uma nova jornada de conquistas na história alvinegra. Uma missão do tamanho do clube que assume a partir de hoje.